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Armando Mattos

Curador
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A Cascata e a Lamparina de gás

Cheguei do Rio trazendo comigo as imagens da mostra de Sergio Allevato. O álbum botânico de Sergio remete instantaneamente as aquarelas de Margareth Mee, mas quando observamos com atenção vemos ali uma ironia critica. As imagens não são, como parecem, copias de coisas já arquivadas na memória. Dos brotos, folhas deformadas em flores, ramos surgem personagens infantis nossos conhecidos: Donald, Zé Carioca, Ligeirinho, Zézinho, Luizinho, Minie, Asterix. As imagens de Allevato nos atraem e prendem como plantas carnívoras para propor contato com a perversidade complexa que envolve a sexualidade em tempos de Brunos e "marias chutarias". Os órgãos reprodutivos das plantas das aquarelas de Sergio, alterados pelo uso de personagens infanto juvenis, me fazem lembrar de Marcel Duchamp em especial da obra "Dados: 1.Cascata, 2. Lamparina de gás" produzida de1946 até1966 que, contendo em si todas as outras obras de Duchamp, nos fala do desejo, do sexo como um mecanismo que, quando acionado, quer alcançar o êxtase. Em Duchamp o ápice do ato estético culmina com tiros de revolver que o artista dá sobre a superfície de sua obra, sobre o vidro pintado, perfurando-o como o esperma perfura a parede do óvulo. Os gineceus e androceus de Allevato não são menos críticos a volatilização da reprodução das espécies. Ao inserir na imagem a surpresa, o inesperado, o curioso Allevato nos fala do sexo/desejo manipulado. Assim como os carros vendem-se pela potência do falo transferida para a potência dos motores, os prazeres de Dionisio e Baco exalam pelo gargalo das "louras geladas". Nos desenhos na mostra da Galeria Artur Fidalgo o que se propaga é a idéia de que nada está livre da perversidade do homem. Mas se as imagens da arte não conseguem transformar o mundo, porque quem transforma o mundo são os homens. A arte existe para transformar o homem.

Boa noite, Cinderela

Na última hora, inspirado por sua ida a Bons Aires, o editor desse periódico me pediu para falar sobre a nova moda cucaracha: o casamento gay. Para mim esse assunto não muda em nada a minha vida, não sou romântico a ponto de querer uma cerimonia nos moldes decadentes, cópia ultrapassada de regimes de comunhão entre pessoas, e que tem como origem a preservação, transmissão de bens e direitos burgueses e, tampouco, preciso do poder instituído do Estado para autorizar meus afeto. Então falar de casamento gay é meio oba-oba num mundo que ainda pedra mulheres como adúlteras. Direitos? No caso do casamento entre pares do mesmo sexo: ótimo, mas não porque optar por liberdade e sanidade apenas por meio da conduta sexual? Direitos sim, como pessoa, ser pensante, responsável por si e pelo outro na vida em sociedade. Se as pessoas não conseguem, sequer, deixar de fumar em locais proibidos por Lei, o que é uma Lei? Afronta a condutas ou dogma? Tudo bem, tô dentro, mas não necessito que alguém me autorize a estar junto de quem gosto. Sou brasileiro, vacinado, carioca forjado no Pier de Ipanema, minha musa é Leila Diniz. Mas, enfim quem precisa de papel para justificar socialmente viver com alguém do mesmo sexo, que vá em frente, quer casar de paletó e gravata, véu e grinalda, tudo bem, agora não esperem que eu vá para Bons Ares para isso. E, Marcelo, acho que você não devia ficar tendo recaídas a cada vez que volta a terra natal, isso não lhe cai bem.

 
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