No começo eu não sei. Sou bem mais moça que a Brigitte Bardot. Ainda.
Quando conheci Búzios tinha 10 anos e sei que a moda era usar tanga. Lembro disso por conta do mal estar provocado por uma moça, de biquíni bem pequeno, entre minha tia e meu tio, na Praia dos Ossos. A praia da moda era essa, mas criança está em outra e eu não era frequentadora da cidade. Sei que o Castejá servia champanhe na varanda da Pousada dos Hibiscos. A moda era ir pra lá.
Depois, nos anos 80... Ah, que delícia! Jogava frescobol sem sutiã em Geribá, e achava o máximo da liberdade! Na verdade, nunca gostei de esporte. Era só onda pra acompanhar namorado e mostrar que vergonha de ficar pelada eu não tinha. Também era moda ter coragem, discutir política e se preparar para mudar o regime. Como continuo sem vergonha e corajosa até hoje, quem mudou foi Geribá. A Luiza, a Brunet passou anos tomando sol com seus peitos lindos em frente à casa do Heitor. Ninguém olhava porque era, e sempre será muito provinciano reparar em artista. Os buzianos nunca pagaram esse mico. O povo daqui nunca foi cafona e o Pelé podia andar tranquilo na Rua das Pedras. Hoje, alguns visitantes e moradores estão querendo dar outra cara pra cidade. Mudou muito. Se alguma garota aparecer sem sutiã na praia, a bregalhada vai bater na menina até matar. As mulheres, com certeza as feias e inseguras, serão as primeiras a chamar de puta! Eu já vi um povo estranho voando em cima do Ronaldinho. Morri de vergonha. Tive vontade de dizer que aquele pessoal não era daqui e pedir desculpas.
Bem, a década de 80 não foi exatamente elegante. Era over pra caramba e a gente nem percebia. Também, depois de tanto hippie mal vestido na década anterior, a gente tinha mais é que exagerar no batom, no salto e no brilho. Ser sexy era tudo! Também era moda cuidar da saúde e malhar. Vai ver que por isso somos as quarentaças e cinquentérrimas de hoje. Sem modéstia. Manter tudo em cima também está na moda.
Lembro que Búzios era o lugar onde mais se via gente bonita nesse país. A juventude dourada carioca, bem nascida e descolada, vinha pra cá nos finais de semana e o bicho pegava. Todo mundo pegava todo mundo. Era moda. Não tinha essa de passar a noite beijando a rua inteira na boca e voltar sozinha pra casa. Que nojo! E também que cortada de onda! Cada um segurava o seu par e finalizava. Sexo era moda. Tinha pílula e a AIDS estava apenas começando. Nossa geração, como a anterior, viveu o sexo sem pecado e sem medo. Livre de verdade.
Era sol o dia inteirinho. A moda era ser bem bronzeada. Nem o rosto era protegido! A gente dormia à tardinha e produzia a roupa com cara de "nem me arrumei, sou linda assim mesmo!" pra andar na rua do vaivém à noite. As lojas ficavam abertas até de madrugada. Yes Brasil, Benetton, Aqualung, Bee. Quem lembra da Abracadabra? Adorava aquela loja, linda!
Foi nessa época que Búzios bombou mesmo. Já tínhamos muitos restaurantes especiais. E, o Stéfano Monti, do Le Streghe, trazia trufas brancas da Itália, quando nem se falava nisso! Os gringos ensinaram muita coisa boa pra gente. Logo depois, com a liberação dos importados, pipocavam carros maravilhosos em cima da calçada com gente bacana saindo de dentro. A moda então era pensar na emancipação da cidade.
Esse negócio de dizer que sandália havaiana era tudo e que rico vinha aqui para brincar de pobre é papo borracha. Só quem é verdadeiramente charmoso fica chique de havaianas fora da praia. Quem é brega fica pior ainda! Pisa na merda total. É preciso cuidado, espelho, bom senso e semancol. Que eu saiba, e me lembre, ninguém fingia ser pobre, isso é lenda. Pelo contrário, tinha duro fingindo ser rico para acompanhar um ou outro milionário. Se o Zé Itajahy era dono da Bibba, em Ipanema, e fazia parte do grupo que ditava o que era moda e estilo nos anos 70, para ser aceito naquele pequeno grupo, só sendo transado mesmo!
A cidade cresceu muito e apareceu na mídia mais do que deveria. Tem o lado bom e o ruim disso, claro. Mas, o momento é sempre hoje e o nosso marketing é, justamente, o charme. Isso a gente precisa lutar para não perder.
É educado acompanhar os hábitos do anfitrião. Eu, quando sou convidada, se vejo sapatos na porta, tiro os meus antes de entrar. Se ele rezar antes das refeições eu também rezo. Por isso não entendo o cara que fica louco para conhecer Búzios, diz que adora isso aqui e chega jogando lixo no chão, cagando na praia, construindo três andares! Não vieram aqui para ser bonitos e chiques? Pra fazer parte do cenário? Temos que ajudar! Se eu fosse Prefeita distribuiria um papelzinho na entrada da cidade sugerindo o in e o out em Búzios. E isso, não define rico e pobre. Porque rico quando dá pra ser cafona... Ganha disparado com o tal do mau gosto requintado!
Sandália alta pode e deve. De salto grosso, claro. Em qualquer praia do Mediterrâneo as mulheres usam até com shortinho. É sexy sem ser vulgar porque só as magras fazem isso. É essa a diferença: ser magro é o primeiro sinal de elegância. Portanto, querida, tá fora do peso? Faz outro estilo pra ficar mais bonita. Roupa larga e engraçada pode deixá-la mais sexy. Experimenta se olhar no espelho toda apertadinha com os pneus pulando da cintura... Se achar bonito é porque perdeu a noção mesmo. Vou ser sincera: você tá parecendo um embutido da Sadia. Mas, vão te comer, claro. Quanto a isso não se preocupe. Tem homem que adora e até exige!
Cabelo mal pintado também é o fim. Não chegue em Búzios assim não, por favor! Quer ser loura de farmácia? Capricha minha filha. Capricha mesmo. Porque esse pode ser o primeiro sinal de cafonice. Se ainda tiver com o formol... Por mais linda que você seja nunca sairá na capa da Vogue. Nem no Perú Molhado, lamento. Bem, no Perú, só se comprar a capa. Mas, tem que pagar e vai custar mais caro. Esse argentino topa tudo por dinheiro!
Bonito e elegante é saber pisar. Queixo paralelo ao chão, ombros no lugar, e nunca, nunca, nunca mesmo caminhar com os joelhos dobrados para se equilibrar no salto. Aí, é melhor calçar as legítimas havaianas, amarrar um paninho colorido na cintura, sorriso e flor no cabelo. Entendeu?
E, definitivamente, homem com pochette é um breve contra a luxúria. Quanto maior, mais cheia, mais desesperador. Eu viro o rosto, me recuso a olhar uma cena dessas. Não tem onde guardar as coisas? Mochila, querido. Você vai ficar uma graça! Faz um bem para as mulheres olhar para um homem charmoso...
E, por favor, cortem as palavras menas e meia. Menas porque não existe. E meia é aquilo que a gente coloca no pé. Para definir um pouco é diferente. Por exemplo: estou meio cansada de ouvir tantos erros. Falar português direito sempre estará na moda. Porque chique mesmo é, pelo menos, parecer inteligente.