Por Sandro Peixoto
Personagem fantástico, imaginável apenas em livros ou filmes, Macaé se adaptou perfeitamente a sociedade buziana. Era apenas mais um louco entre tantos outros que iluminam essa cidade. Ainda tinha uma vantagem em relação aos diferentes loucos. Quando cansava da realidade que o cercava, criava a própria. Particular, cheias de personagens imagináveis e inimagináveis como ele.
Acompanhado de sua inseparável garrafinha de cachaça, sentava num canto e conversava por horas com seus companheiros invisíveis. Muitas das vezes brigava. Discutia, xingava, dava foras e reprimendas. Naquele mundo particular, ele mandava. As regras eram claramente suas. Se alguém de fora ousasse intervir naquela conversa metafísica era defenestrado na hora. No mundo particular de Macaé cabiam apenas ele, seus amigos imaginários e só.
Um dia, idiota que sou, briguei com Macaé. Depois fiquei pensando na burrice que tinha cometido. Não se briga com bêbado, crianças, índios ou flamenguistas. São todos inimputáveis. Arrependido, fiz as pazes. Tive a ligeira impressão que para ele nos não brigamos. A arenga aconteceu apenas na minha cabeça.
Finalmente amigos, curtir bons momentos com Macaé. Poucos, mas bons. Quando estava sóbrio era de uma delicadeza imensa. Atencioso, respondia a todas as perguntas. Até as impertinentes. Gostava de falar de si mesmo. Mas contava pouco. As conversas eram fracionadas. Cheias de flash vagos. O legal era ver o Macaé sóbrio, conversando como qualquer pessoa normal. Coisa que definitivamente ele não era.
Macaé morou em Búzios por muitos anos. Era natural da cidade de Macaé, claro. Daí seu apelido. Foi (era) um dos melhores mecânicos de bicicleta da cidade. Ainda tinha uma carroça com a qual fazia fretes. Trabalhava direitinho. Nos momentos de sobriedade, era sério e compenetrado. Não mexia com ninguém. Adorava cachorros.
Nos anos 80, quando surgiu no mundo a grife Benetton, um amigo do dono da marca resolveu abrir uma loja em Búzios. No mundo inteiro só
rico vestia Benetton. Em Búzios essa era uma primazia dos pescadores. O jornal O Perú Molhado colocou Macaé na capa, de cabeça raspada, óculos escuros na ponta do nariz, palito entre os dentes, vestido de Benetton. Com pulôver da marca perdurado no pescoço para não deixar duvidas. Nunca uma foto traduziu tão bem a Búzios daquela época.
A morte fria e solitária
O corpo de Macaé foi encontrado na última quinta-feira, pela manhã. Jazia pálido na porta de sua casa. Não havia sinais de violência. Um filete
de sangue escorria a partir de sua têmpora direita. A primeira impressão diz que ele caiu sozinho e bateu a cabeça na parte cimentada que existe na entrada da simples casa. O terreno inteiro é de terra batida. Apenas um pedacinho é coberto de cimento. E foi bem nesse local que Macaé encontrou a morte. Sozinho...
Quando soube de sua morte fui ver se podia ajudar em alguma coisa. Nem imaginava encontrar seu cadáver no local. Mas ele ainda estava lá. Debaixo da chuva. Protegido apenas por um cobertor. O que mais me chamou a atenção não foi lhe ver desfalecido. Foi à horta bem cuidada que ornamenta seu jardim. Fileiras de alfaces, couves e outras hortaliças provavam que ali existia vida. Que apesar de naquele lugar morar um homem solitário, cheio de problemas existenciais, o amor se fazia presente em pequenos canteiros bem cuidados.
Amigos e vizinhos dizem que a plantação de hortaliças estava mexendo com Macaé. O deixando feliz. Além da horta no quintal de casa, fez outra. Num terreno na Rua do Sossego, que pertence a nosso amigo Ivan, do Capitan’s. O que colhia vendia na vizinhança. Sua clientela aumentava a cada dia. Um dia antes de sua morte, Encomendou ao vizinho Guille, uma placa onde se lia: Vendem-se verduras. Morreu sem poder anunciar seu promissor negócio.



